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O que sobra para o povo honesto do Amapá? E do Brasil?

PLENONEWA
17 de Setembro de 2026 às 17:02
5 min de leitura
O que sobra para o povo honesto do Amapá? E do Brasil?
É preciso ser astuto como a serpente e sem malícia como a pomba (Imagem ilustrativa) Foto: IA\Chat GPT

Imagine o leitor a situação do amapaense honesto. De um lado, o grupo político de Davi Alcolumbre. Que dispensa apresentações. INSS, Master, Beto Louco; os escândalos se alternam, mas Davi não. Continua o mesmo.

O homem que já foi tenente do Sarney no Amapá e passou a perna na raposa do Maranhão. Astuto como ninguém. Sempre lá, mas nunca como culpado.

Do outro lado, o grupo político da família Furlan. O ex-prefeito de Macapá, Dr. Furlan, lidera as pesquisas para o governo do estado. Acima dos 60%, tendo 38 pontos de vantagem sobre o atual governador, um aliado de Alcolumbre. Para o Senado, Rayssa, a irmã, está na frente com larga vantagem.

No entanto, a despeito de sua popularidade, Dr. Furlan é alvo de uma série de investigações. Em março, a PF bateu na sua porta com autorização do Flávio Dino. A decisão também o afastou da Prefeitura de Macapá.

Dentre as provas, a PF seguiu e fotografou o empreiteiro vencedor da licitação, sacando dinheiro em espécie, colocando-o numa mochila, levando-a até um ponto de encontro, onde a mochila foi embora num carro em nome do doutor.

Diante disso, te pergunto: o que faz o amapaense honesto? Anula o voto? Muda de estado? Ou simplesmente vota no Dr. Furlan e na sua irmã para o Senado?

Há algum tempo, se instalou, em parte da classe média urbana brasileira, a ideia de que não existe um menos pior. São todos iguais.

Essa é uma ideologia triunfante na demografia formada por aqueles com curso superior e que vivem nas grandes cidades. Magnânimos: recusam-se a tomar decisões.

No Amapá, devem estar concentrados em Macapá. E, agora, aposto que pretendem anular o seu voto. Afinal, a PF parece ter um caso bem forte.

É minha opinião, mas imagino que o leitor deva concordar: pegaram o Furlan com a boca na botija. Qual a diferença para o Davi Alcolumbre?

Eu lhes respondo: imensa!

E é imensa para qualquer um que ache estranho, que:
Dr. Furlan seja o único prefeito entre as 27 capitais brasileiras em que há uma investigação sobre o uso de emendas parlamentares;
uma investigação sobre emendas parlamentares não tenha nenhum parlamentar como investigado;
o candidato ao governo do Amapá tenha sido o caso raro de um político afastado do cargo durante a investigação;
a celeridade e energia empregada nessas investigações pareça diferente do comum;
Davi Alcolumbre consiga ter seu nome citado em todos os grandes escândalos da República e nunca tenha visto a PF na sua porta.

Ou simplesmente seja capaz de perceber que os esquemas em que Alcolumbre é citado rodam na casa dos bilhões de reais, que o Beto Louco tem conexões com facções criminosas; que até em contrabando de combustível o nome do Alcolumbre já apareceu, e que seus tentáculos hoje alcançam até a CBF.

Agora, o beneficiário da recusa em hierarquizar o mal é o mal maior. A apatia cínica é serviço prestado ao que há de pior. A recusa em agir não trará mais prosperidade nem bem-estar aos amapaenses. Apenas continuaria servindo aos métodos que Alcolumbre aprendeu com Sarney.

Esta posição, doravante denominada “nulismo”, comumente é defendida como um exemplo de retidão. Uma espécie de teoria moral baseada nos ensinamentos de dona Florinda, que exortava o seu amado filho a “não se misturar com essa gentalha”.

Sim, o excesso de zelo, entretanto, como bem pontuou o papa Francisco, “em certas situações, pode provocar desastres: pode arruinar uma construção que teria exigido gradualismo; pode gerar conflitos e mal-entendidos; pode até desencadear a violência.”

Porque, numa situação como esta, o que cabe ao homem reto não é lavar as mãos, mas “governar as ações a fim de as orientar para o bem”.

Eu não tenho dúvida de que o amapaense honesto preferiria um político sem escândalos associados ao seu nome. Eu também.

Quem não? Talvez só os atuais políticos.

O fato é que esta opção parece não existir no Amapá. E o resultado efetivo do nulismo é garantir que Davi Alcolumbre continue acumulando poder.

Quando um eleitor enfrenta a escolha entre um candidato ruim e outro pior, e vota no ruim para evitar o pior, ele não está cooperando com o mal. Está o limitando.

Um governo com alguém que retire poder de Alcolumbre cria uma realidade institucional e política diferente, capaz de gerar possibilidades diferentes.

Ao amapaense honesto, escolher o bem parece ser impossível, mas escolher as condições que permitirão a existência do bem está ao seu alcance.

É triste que a situação do Amapá pareça refletir o que vivemos no Brasil. O próximo presidente da República indicará quatro ministros para a Suprema Corte, que, hoje, mantém o país em um verdadeiro regime de exceção, cujo estado de direito foi abolido por seus integrantes.

E abundam defensores do nulismo prontos para entregar estes e outros poderes ao partido que montou o maior esquema de corrupção da história do continente e passou os últimos quatro anos aumentando impostos e tentando censurar o campo político adversário.

O que sobra para o brasileiro honesto é o mesmo que sobra para o amapaense: ser astuto como as serpentes e sem malícia como as pombas.

* O autor, Ivanildo Terceiro, é diretor global de marketing do Students for Liberty, e fellow do Instituto Amplifica.

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