E o povo como está? Entre o osso e o caroço
Recentemente, fui ao supermercado. Imagino que esse seja um passeio que você faça também, caro leitor. Mas confesso que já fui mais feliz nessas minhas saídas.
Lembro, por exemplo, que há quatro anos, ou seja, não muito tempo assim… Ou seria muito? Ainda não sei bem… Minha compra mensal, já que moro sozinha, com carne, laticínios, frutas e verduras, massas, alguns enlatados, produtos de limpeza, chocolates e outros extras, dava no máximo R$ 400,00.
Mas hoje, esse mesmo valor muito mal dá pra leite, ovos, frutas e verduras, um ou outro item de limpeza (não todos, tenho comprado apenas os imprescindíveis), alguns insumos urgentes… Mas, detalhe: nada de carne, e os extras foram cortados definitivamente. E, claro… há quem diga que isso é apenas uma “sensação de carestia”.
Mas, dessa vez, saí do mercado entre chateada e sarcástica, cantarolando um antigo samba, de Almir Guineto e Adalto Magalha, que diz assim:
E o povo como está? Tá com a corda no pescoço
É o dito popular: Deixa a carne, rói o osso.
Mas a vida dessa gente, aposto que está um colosso
Mas da fruta que eles gostam, eu como até o caroço.
E sim; estamos roendo todos as “frutas” até o caroço. Só não sei se fazem bem à saúde.
Porém, essa canção me fez lembrar de outra coisa. E, por isso, trago esse assunto hoje. Perceba: pescoço, osso, colosso, caroço. Letras diferentes, sons iguais. E aí, você sabe onde colocar o ss e o ç? Já que eles têm o mesmo som?
Eu gostaria que, nesse mundo da gramática, tudo fosse muito preto no branco, mas nem sempre é. Ainda assim, podemos nos guiar por algumas ideias e dicas. Olha só.
O ç é um disfarce para mudar o som da letra c. O que acontece é que a letra c, quando seguida das vogais e e i, já tem o som de s. Por exemplo: cebola, cinema.
No entanto, quando seguida de a, o e u, ela tem o som de k. Por exemplo: casa, copo, cupim. Assim, quando precisamos representar o som de s com a letra c antes dessas vogais, usamos o ç. Captou?
Vale saber também que encontramos o ç em palavras de origem árabe, tupi ou africana. Por exemplo: muçulmano, caçula, araçá.
E há outra dica importante: nunca começamos uma palavra com ç. Também nunca usamos ç antes de e e i, porque, com c, essas vogais já entregam o som de s. Beleza?
Agora, e o ss? Ele é um dígrafo, ou seja, duas letras que representam um único som, usado exclusivamente entre vogais. Até porque, quando um s surge sozinho no meio de duas vogais, normalmente ele ganha som de z. Por exemplo: casa, mesa, vaso. Percebe?
Daí, para representar o som de s entre vogais, usamos o ss. Então: osso, colosso, pássaro, massa.
Mas atenção! Isso não significa que toda palavra com esse som entre vogais seja escrita com ss. A grafia também depende da formação e da origem das palavras.
Por isso, vale saber que, quando alguns verbos, por exemplo, progredir, demitir, conceder, exprimir e deprimir, se tornam substantivos, temos progressão, demissão, concessão, expressão e depressão.
Também, quando um prefixo termina em vogal e o elemento seguinte começa com s, esse s precisa ser duplicado. Por exemplo: autossuficiente, microssegundo, antissocial.
E a última dica, bastante preciosa, é que nenhuma palavra em português começa com ss. Logo, você nunca usará ss para começar uma palavra. Combinado?
Bem… sobre compras, imagino que a sua situação seja parecida com a minha. E, quanto a isso, por enquanto, o que podemos fazer é continuar nos virando, economizando, mudando hábitos, sobrevivendo. Mas, quanto ao português, de verdade, espero ter lhe ajudado.
Um abraço e até a próxima!